por Márcio Adriano Moraes
Em Cordéis e outros poemas, Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré — nome que associa o canto da ave à sua origem cearense —, transforma a experiência do sertão em matéria de poesia, narrativa e debate público. Organizada em quinze cordéis e dois poemas finais, a coletânea reúne histórias de família, episódios cômicos, homenagens religiosas, comentários políticos e versos sobre a seca e a migração. O conjunto revela um poeta capaz de contar uma história extensa, sustentar um argumento e criar imagens memoráveis sem perder a proximidade com quem o escuta.
Essa proximidade está, sobretudo, na construção formal, em que as estrofes, as rimas e a cadência dão movimento aos acontecimentos e ajudam a fixar passagens na memória. O cordel é uma forma de poesia popular ligada à tradição oral e à circulação de folhetos ilustrados comumente com xilogravuras, reconhecível pelo ritmo e pela métrica, com presença de versos pentassílabos e heptassílabos, pelas rimas e pela organização dos versos em estrofes.
Em Patativa do Assaré, esses recursos facilitam a declamação, sustentam narrativas extensas e aproximam a plateia do poeta o qual se dirige ao leitor, interrompe a narrativa para comentar o que contou e, por vezes, anuncia o sentido moral de uma história. Em “O padre Henrique e o dragão da maldade”, chega a reconhecer um desvio do assunto antes de retomá-lo. Gestos como esse simulam uma conversa diante do público, mas também mostram o controle que Patativa exerce sobre o andamento do poema. A aparente espontaneidade resulta de escolhas precisas de voz e composição.
“A triste partida” figura entre os textos mais comoventes da coletânea. A espera pela chuva atravessa os meses, acumula sinais frustrados e termina na saída de uma família nordestina. A sequência temporal permite sentir a demora da decisão, pois partir significa admitir que a vida desejada em sua própria terra se tornou insustentável. Em São Paulo, a promessa de trabalho dá lugar à pobreza, ao desprezo e ao adiamento contínuo do retorno. A seca desencadeia a viagem, mas o poema não atribui todo o sofrimento ao clima. As relações de trabalho e a condição social dos migrantes prolongam o flagelo longe do sertão.
“Emigração” amplia esse olhar, acompanhando as consequências da partida para crianças e famílias desamparadas, aproximando pobreza rural, deslocamento e abandono nas cidades. Já o “ABC do Nordeste Flagelado” usa a sequência alfabética para reunir imagens da estiagem e de seus efeitos sobre animais, lavouras e pessoas. A ordenação das letras poderia sugerir uma simples enumeração; Patativa a converte em progressão de sofrimento. Quando uma criança pede comida à mãe, a calamidade deixa de ser uma descrição geral e adquire a força de uma cena familiar. Nesses poemas, a denúncia social nasce da atenção a vidas concretas.
A relação com a terra assume outro rumo em “A terra é naturá”. Dirigindo-se a um “dotô”, o trabalhador formula, em sua própria linguagem, um argumento sobre a origem comum dos bens naturais. Sol, chuva, vento e terra não são apresentados como privilégios concedidos a poucos. O contraste entre a instrução escolar do interlocutor e a experiência do homem do campo organiza o confronto. O poema demonstra que o pensamento também pode surgir do trabalho, da observação e de uma fala socialmente desvalorizada. A forma de dizer participa, pois, da ideia defendida.
Essa defesa da voz sertaneja orienta “Cante lá, que eu canto cá”. Ao se dirigir ao poeta da cidade, Patativa questiona a autoridade de quem pretende representar uma vida que conhece apenas de fora. O contraste entre os dois espaços inclui diferenças de estudo, recursos materiais e experiência. O eu poético reivindica para si o direito de cantar o sertão porque nele vive e trabalha. Em “O meu livro”, essa posição ganha feição metalinguística, com a natureza se tornando fonte de leitura e aprendizagem. Os poemas afirmam uma formação construída fora da escola, sem reduzir a poesia a mero registro de costumes.
Quanto à linguagem, suas formas de pronunciar e organizar as palavras criam ritmo, caracterizam as vozes e situam os conflitos. Patativa também alterna registros com uma escrita que não reproduz sempre a mesma fala. Essa mobilidade impede que se trate o sertanejo como personagem de voz única. A variação linguística, em sua obra, tem valor expressivo e pode sustentar tanto uma cena de humor quanto um argumento sobre justiça. Lê-la apenas como afastamento da norma escolar seria ignorar o trabalho artístico que a transforma em verso.
Os cordéis narrativos mostram outra face desse trabalho. “História de Abílio e seu cachorro Jupi” desenvolve conflitos entre irmãos, violência, fidelidade e reconhecimento, até chegar a um desfecho marcado pela possibilidade de reconciliação. Em “Brosogó, Militão e o Diabo”, o embate entre um vendedor ingênuo e um homem poderoso produz uma inversão engenhosa das expectativas, com a ajuda decisiva vindo de uma figura que o leitor tenderia a julgar antecipadamente. Patativa explora o suspense, adia revelações e põe em dúvida a correspondência entre reputação e conduta. Nessas histórias, a lição moral funciona porque passa pelas ações das personagens.
O humor também percorre “As façanhas de João Mole”, “O doutor Raiz” e “O bode de Miguel Boato”. Apelidos, exageros, confusões e mudanças bruscas de situação dão vivacidade aos enredos. O riso, porém, merece leitura atenta. Pode expor a mentira e a vaidade, mas algumas cenas recorrem a papéis familiares e ideias sobre comportamento que pedem exame crítico. Algo semelhante ocorre em “Vicença e Sofia ou o castigo de mamãe”, no qual o poema contesta o desprezo dirigido às pessoas negras, ao mesmo tempo que descreve as mulheres por critérios de aparência e serviço doméstico.
As referências religiosas e políticas tampouco formam um discurso uniforme. “Saudação ao Juazeiro do Norte” e “Antônio Conselheiro” valorizam figuras ligadas à fé e à história do Nordeste. “O padre Henrique e o dragão da maldade” denuncia o assassinato de um religioso comprometido com os oprimidos e pergunta que interesse existe em chamar de comunista quem defende os pobres. Em contrapartida, “Glosas sobre o comunismo” apresenta uma condenação severa dessa doutrina. A distância entre os textos revela um poeta que responde a conflitos concretos por meio de convicções religiosas, simpatias populares e posições políticas nem sempre conciliáveis. A obra ganha densidade quando essas diferenças permanecem visíveis.
Patativa do Assaré faz da poesia um lugar de encontro entre a memória oral, a invenção narrativa e a disputa por quem pode falar sobre o sertão. Sua força está tanto na musicalidade dos versos quanto na capacidade de aproximar uma experiência individual de problemas coletivos. Há sofrimento e indignação, mas também humor, fantasia, fé e prazer de contar. Ler Cordéis e outros poemas criticamente exige acompanhar essa diversidade: escutar a voz que reivindica dignidade para os pobres, observar como ela constrói seus efeitos e interrogar os valores que cada poema põe em circulação.