por Márcio Adriano Moraes
Publicado em 1869 no Jornal das Famílias, O anjo Rafael pertence à fase inicial da produção de Machado de Assis, tradicionalmente associada ao Romantismo. O conto reúne aventuras misteriosas, casamento, jovem idealizada, coincidências e transformação moral, elementos frequentes na literatura romântica e folhetinesca. Entretanto, a ironia do narrador, a ambiguidade das motivações e a investigação do autoengano anunciam procedimentos que se tornariam centrais na ficção machadiana posterior.
A narrativa começa quando o Dr. Antero da Silva, aos trinta anos, decide suicidar-se. Endividado, frustrado e convencido de conhecer suficientemente os homens e as mulheres, compra uma pistola, afasta o criado Pedro e escreve uma carta destinada à publicação. Antero deseja abandonar o mundo, embora pretenda deixar nele sua “última palavra”. A contradição revela que sua morte também foi concebida como espetáculo, já que o protagonista imagina a polícia encontrando o cadáver, os jornais noticiando o caso e os escritores comentando sua despedida.
Quando está prestes a disparar, três pancadas à porta interrompem o gesto. Um mensageiro entrega-lhe um bilhete enviado pelo major Tomás, homem desconhecido que deseja propor-lhe um negócio relacionado a uma fortuna. A curiosidade e o interesse financeiro afastam imediatamente a ideia do suicídio. Antero acompanha o criado até uma chácara isolada na Tijuca, embora a viagem noturna e o distanciamento progressivo da cidade despertem sua apreensão.
Na propriedade, portões fechados, corredores, portas trancadas, janelas gradeadas, silêncio e um enorme cão de guarda produzem uma atmosfera ameaçadora. Antero é conduzido a um quarto e percebe que não pode sair. No dia seguinte, conhece o major Tomás, velho de aparência severa que lhe oferece a filha Celestina em casamento e promete entregar-lhe uma fortuna. Inicialmente desconfiado, o médico reconsidera a proposta depois de conhecer a jovem, cuja beleza, inocência e educação reclusa correspondem ao modelo da heroína romântica.
Celestina desconhece as relações sociais e afetivas que estruturam a vida fora da chácara. Aceita com naturalidade a decisão paterna e pergunta a Antero se ele será seu marido, embora nem sequer compreenda plenamente o significado do casamento. O médico, atraído pela jovem e pelo dinheiro oferecido, permanece na propriedade.
A situação torna-se mais complexa quando o major declara ser o anjo Rafael, enviado por Deus à Terra para recolher boas almas. Segundo sua versão, os homens teriam rejeitado sua missão, obrigando-o a retirar-se do mundo. Antero reconhece uma “monomania”, mas simula respeito pela natureza celestial do anfitrião, uma vez que deseja manter o casamento e a promessa de riqueza.
O delírio do major não se limita à própria identidade. Por ser filha de um anjo, Celestina também possuiria natureza angélica; como seres celestiais não se casariam, Fernanda, esposa do major e mãe da jovem, é apagada da história familiar. A crença delirante reorganiza todos os acontecimentos e produz um sistema internamente coerente, embora fundado em uma premissa falsa.
Enquanto permanece na chácara, Antero lê nos jornais a notícia de sua própria morte. Como sua carta foi encontrada e um cadáver desconhecido apareceu na praia, a polícia concluiu que ele havia cometido suicídio. Um folhetinista transforma a suposta tragédia em matéria humorística e ridiculariza a carta de despedida. Ao contemplar de fora a repercussão que desejara produzir, Antero percebe o caráter pretensioso de sua escrita.
O episódio amplia sua transformação. Na chácara, ele experimenta o amor por Celestina, o remorso diante do sofrimento alheio e a gratidão pelo criado Pedro, responsável por mandar celebrar uma missa por sua alma. Tais sentimentos não eliminam suas fraquezas, mas introduzem vínculos humanos em uma existência antes marcada pela superficialidade.
Ao descobrir que Celestina acredita na natureza angélica do pai, Antero considera abandonar a propriedade. Antônia, criada e cuidadora da jovem, pede-lhe que permaneça e explica como o isolamento permitiu ao major transmitir suas crenças à filha. Celestina não produziu autonomamente o mesmo delírio; ela assimilou uma versão do mundo ensinada pela única autoridade que conhecia. A situação aproxima-se da chamada folie à deux (expressão em francês que significa “loucura a dois”), embora o conto diferencie o delírio originário do pai e a adesão aprendida pela filha.
A chegada do coronel, antigo amigo da família, esclarece o passado do major. Tomás expulsara Fernanda depois de encontrar uma carta e suspeitar que ela fosse infiel. O coronel acreditou inicialmente na acusação, mesmo diante dos protestos da mulher. Anos depois, encontrou-a vivendo como criada e descobriu que a carta comprometia outra pessoa. Apesar das provas, o major não aceita plenamente a inocência da esposa, visto que sua identidade angélica lhe permite negar qualquer casamento humano.
Fernanda ocupa uma posição decisiva mesmo permanecendo afastada da ação. Acusada, expulsa e reduzida à pobreza, ela perde o convívio com a filha e tem sua maternidade simbolicamente anulada. A verdade descoberta tardiamente corrige a acusação, mas não restitui os anos roubados. Por meio dessa trajetória, Machado expõe a autoridade patriarcal que transforma a suspeita masculina em sentença e recusa credibilidade à palavra feminina.
Após adoecer, o major acredita que um anjo veio buscá-lo para o céu e morre, não sem antes pedir que Antero se case com Celestina. A jovem é retirada da chácara e introduzida gradualmente na vida social, perdendo as ideias extravagantes incutidas pelo pai. Três meses depois, casa-se com o médico. O coronel promete buscar Fernanda no Norte, mas o conto termina antes de apresentar o reencontro entre mãe e filha.
A resolução sentimental não apaga as ambiguidades. Antero encontra amor, fortuna e nova disposição diante da vida; sua renovação, contudo, permanece misturada a interesses econômicos. Celestina conquista a liberdade fora da chácara, mas passa da tutela paterna para o casamento, enquanto a reparação de Fernanda permanece projetada para o futuro. O narrador encerra a história com uma exclamação sobre o amor, o coração e o egoísmo humano, relativizando a harmonia do desfecho.
A construção do espaço contribui para o suspense. A chácara reproduz convenções da tradição gótica: isolamento, escuridão, vigilância, corredores e acessos controlados. A referência a Hoffmann orienta o leitor para o fantástico, embora os acontecimentos recebam posteriormente uma explicação psicológica. O que parecia sobrenatural revela um universo doméstico organizado pela loucura, pelo autoritarismo e pela supressão de perspectivas divergentes.
O narrador em terceira pessoa aproxima-se com frequência da percepção de Antero, permitindo que o leitor compartilhe suas dúvidas e seus medos. Ao mesmo tempo, intervém para corrigir as proporções heroicas que o protagonista atribui a si. Essa distância irônica impede a identificação ingênua: acompanhamos a aventura de Antero, mas reconhecemos sua vaidade, sua fraqueza e suas racionalizações.
Quanto à ironia do título, Rafael, na tradição bíblica, associa-se à cura e à condução de viajantes; no conto, quem reivindica esse nome é um homem dominado por um delírio. Paradoxalmente, a entrada em sua casa conduz Antero a uma forma de cura moral e permite que Celestina seja retirada do isolamento. O major não é um anjo verdadeiro, mas sua loucura desencadeia encontros que transformam outras vidas.
O anjo Rafael combina enredo romântico e consciência crítica. O casamento encerra a aventura, mas não resolve inteiramente as violências que a tornaram possível. Entre a pistola abandonada, a fortuna escondida, a identidade celestial e a jovem confinada, Machado investiga personagens que constroem versões convenientes da realidade. A força do conto nasce dessa tensão: enquanto o acaso salva Antero da morte, a ironia revela que sobreviver não significa tornar-se imediatamente virtuoso, e descobrir a verdade não basta para apagar o sofrimento produzido pela mentira.