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Márcio Moraes
no leito solidário de uma floresta altiva descansem por favor a minha poesia
Textos

Poesias selecionadas de Gregório de Matos

(Paes 1ª Etapa Unimontes 2026)

por Márcio Adriano Moraes

Gregório de Matos e Guerra nasceu em Salvador, em 1636, no interior de uma família ligada à sociedade açucareira. Estudou Direito na Universidade de Coimbra e exerceu atividades jurídicas em Portugal antes de regressar à Bahia. Sua produção abrange poemas líricos, religiosos, amorosos, eróticos e satíricos, mas foram sobretudo as sátiras que consolidaram sua imagem de poeta irreverente, posteriormente associado ao epíteto “Boca do Inferno”. Seus versos atingiram governantes, comerciantes, integrantes do clero, falsos fidalgos e diferentes grupos sociais. As inimizades provocadas por esses ataques contribuíram, segundo a tradição biográfica, para seu degredo em Angola, em 1694. Depois de retornar ao Brasil, estabeleceu-se no Recife, onde morreu em 1696.

 

A obra atribuída a Gregório de Matos apresenta uma questão autoral complexa, já que seus poemas circularam oralmente e por meio de manuscritos, sendo reunidos e publicados muito tempo depois de sua morte. Por isso, títulos, rubricas e até mesmo a autoria de determinados textos são questionáveis. Ainda assim, é inquestionável sua importância no Barroco brasileiro, oferecendo uma representação literária autêntica da Bahia seiscentista. Longe de realizar um registro imparcial, o poeta seleciona, concentra e exagera comportamentos para construir uma cidade dominada pelo interesse, pela fraude, pela ambição e pela hipocrisia.

 

No soneto “O poeta descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia”, iniciado pelo verso “A cada canto um grande conselheiro”, Salvador é retratada pela enumeração de tipos sociais e práticas condenáveis. Falsos governantes desejam administrar “o mundo inteiro”, embora não saibam governar a própria “cozinha”; olheiros investigam a vida alheia; a usura domina os mercados; e o furto aparece como meio de prosperidade. O verso final — “E eis aqui a cidade da Bahia” — reúne as cenas anteriores em um retrato coletivo, no qual os vícios particulares definem o espaço urbano.

 

Em “Epílogos”, a cidade é submetida a um interrogatório satírico. Perguntas e respostas breves identificam aquilo que lhe falta — “Verdade, honra, vergonha” — e aquilo que provoca sua perdição — “Negócio, ambição, usura”. O recurso da disseminação e recolha faz com que os termos apresentados isoladamente retornem agrupados nas estrofes seguintes. O poema alcança diferentes setores da sociedade, como o governo, a justiça e o clero, compondo uma anatomia do corpo político baiano. A linguagem engenhosa, entretanto, convive com expressões racistas e hierarquizações sociais próprias do universo colonial, aspecto que demanda leitura histórica e crítica.

 

A personificação de Salvador torna-se mais evidente em “À cidade da Bahia”. A exclamação “Triste Bahia!” estabelece um diálogo entre o poeta e a cidade, ambos empobrecidos pelas transformações econômicas. A “máquina mercante” representa um sistema comercial que troca o açúcar produzido localmente por mercadorias estrangeiras consideradas inúteis. Os paralelismos aproximam os destinos do sujeito e da Bahia, enquanto as antíteses entre riqueza e pobreza revelam a passagem de um passado próspero para um presente de endividamento.

 

Em “Aos vícios”, a voz poética reflete sobre sua própria atividade. A “lira maldizente” transforma-se em instrumento de censura, e as referências a Tália, Apolo, Parnaso e Pégaso vinculam a sátira à tradição clássica. Ao perguntar “Nunca se há de falar o que se sente?”, o poeta defende o direito de denunciar o roubo e a hipocrisia. Também acusa aqueles que permanecem calados por medo de terem os próprios erros expostos, como sugere a imagem dos “telhados [...] vidrosos”.

 

Por fim, “Embarcado já o poeta para o seu degredo...” converte a despedida da Bahia em prolongada invectiva. Em cem versos organizados em vinte e cinco quadras, o sujeito aconselha ironicamente os meios necessários para prosperar: roubar, não pagar dívidas, lisonjear poderosos e acumular dinheiro. O paradoxo “só direita em se entortar” resume essa sociedade às avessas, na qual a deformação se tornou regra.

 

Os cinco poemas selecionados demonstram que a força da sátira gregoriana resulta da união entre crítica social e elaboração formal. Sonetos, tercetos, quadras, decassílabos e redondilhas acolhem ironias, antíteses, paradoxos, hipérboles, enumerações e trocadilhos. Dessa maneira, Gregório de Matos transforma Salvador em personagem poética: uma cidade interrogada, lamentada, aconselhada e insultada, cujos conflitos revelam as tensões econômicas, políticas e morais da sociedade colonial.

 

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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 14/08/2026
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