Publicação na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Volume XXXVI. 1º Semestre de 2026. Márcio Adriano Moraes. Cadeira nº. 59. Patrono: João Valle Maurício.
Ficava ali, na Avenida Dulce Sarmento, numa esquina que dava acesso ao Alto São João, próximo à casa de meus avós maternos e, talvez por isso, já chegasse aos meus olhos revestidos de afeto. Para um menino dos anos 1980, o Bar Azul era uma espécie de território encantado, desses que a memória conserva com a mesma ternura com que se guarda um brinquedo antigo. Um azul que chega como o céu descendo para recordar um tempo que se foi no espaço, mas que permanece cá dentro.
No fundo do estabelecimento havia um playground. Imenso para o menino de então que escorria o seu cabelo de suores de tanto brincar. Havia uma casinha de madeira com balanços feitos de pneu, uma gangorra que parecia capaz de levar alguém até as nuvens e um cavalinho de madeira que galopava sem sair do lugar. Enquanto os adultos conversavam à mesa; nós, crianças, construíamos ali aventuras que não precisavam de mapas nem de heróis. Bastavam alguns minutos de liberdade e toda aquela estrutura se transformava em castelos, navios ou cidades imaginárias. Como eu gostava daquela casinha de madeira.
Criança em restaurante, já se sabe; a comida era o segundo plano, ou terceiro se houvesse mais entretenimento. O alimento era mais lúdico do que propriamente gastronômico. Ao menos era assim, até a mãe gritar lá de dentro anunciando a chegada do churrasco. Engraçado, com certeza havia outros pratos no cardápio, mas só me lembro do churrasco. Aquela assada carne que me chegava aos olhos com o sabor já na pupila. Não, é preciso corrigir minha memória, a comida não era apenas um detalhe. O churrasco do Bar Azul possuía um sabor que atravessou décadas e ainda hoje parece repousar em algum lugar da minha boca. Havia também um arroz diferente, de grãos mais firmes e aparência distinta dos que minha mãe fazia. Não tenho certeza, mas creio que foi ali que experimentei pela primeira vez o arroz parboilizado. Desde então, tornou-se o meu preferido. Hoje, já na casa dos “enta” praticamente só ele entra na feira matrimonial. É curioso como certos sabores permanecem quando tantas imagens desaparecem.
Ah, o ritual do churrasco... o espeto era acomodado sobre a própria mesa, encaixado em um suporte de madeira ou metal que me parecia engenhoso. A carne ficava ali, ao alcance das mãos, e nós mesmos podíamos nos aventurar a cortar os pedaços; naturalmente, sem a habilidade dos garçons-churrasqueiros.
Foram muitos almoços e jantares em família, além de encontros com amigos. Não me chega agora, depois de tantos anos, o assunto das conversas, mas tenho certeza de que era afável ao coração. O Bar Azul não me traz outra lembrança que não seja a de um lugar querido.
Ah, há uma linha de lembrança curiosa. Em algumas ocasiões, vi meus pais conversando com uma senhora que transitava pelo lugar com familiaridade. Nunca soube ao certo se era a proprietária ou alguém da família dos donos. Sua imagem ficou, mas seu nome se perdeu em alguma dobra da memória.
E é justamente a memória que me prega uma peça. O restaurante chamava-se Bar Azul. Contudo, não consigo me lembrar se havia, de fato, muito azul ali. Talvez a fachada fosse azulada. Talvez as paredes. Talvez alguma placa. O nome sugere uma cor que deveria ter permanecido viva na lembrança, mas ela se dissolveu. A angústia de não conseguir recuperar aquilo que parecia tão simples. Entretanto, lembro-me que nos pratos brancos havia estampado o nome do azul do bar.
Talvez seja esse o destino de certos lugares. O concreto desaparece primeiro com suas cores, seus letreiros, com seus detalhes arquitetônicos. O que permanece é outra coisa. Permanecem os balanços de pneu, o cavalinho de madeira, o espeto fumegante sobre a mesa, o arroz de sabor inesquecível, a proximidade da casa dos avós, as vozes familiares reunidas ao redor de uma refeição. O azul do Bar Azul se apagou para outros bares que surgiram depois no mesmo lugar. Não tenho segurança na memória, mas arrisco dizer que ali sempre foi um lugar de restaurantes. E digo mais. Retornei a ele com estes outros nomes. Mas não era o Bar Azul. Era Las Palmas, era Sal e Brasa...
O Bar Azul já não existe mais. Mas a felicidade daqueles dias continua intacta, pintada em cores que o tempo não conseguiu desbotar. É. A cor azul. Talvez seja esta a cor da memória.