por Márcio Adriano Moraes
Dirigido por Lilian Solá Santiago e Marianna Monteiro, o documentário Balé de Pé no Chão — a dança afro de Mercedes Baptista traz a trajetória de uma das figuras mais importantes da dança brasileira. Produzida em 2005, a obra possui aproximadamente 52 minutos de duração e combina depoimentos, fotografias, imagens de arquivo e registros coreográficos para reconstruir a vida artística de Mercedes Baptista (1921-2014). O documentário discute as relações entre dança, racismo, ancestralidade e reconhecimento profissional, mostrando como a coreógrafa transformou os obstáculos encontrados em uma linguagem capaz de colocar o corpo negro no centro da criação cênica.
A fluminense de Campos dos Goytacazes ingressou no universo da dança em uma sociedade na qual os grandes espaços culturais eram orientados por modelos europeus de técnica e beleza. Sua aprovação para integrar o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro representou uma conquista histórica, pois ela se tornou a primeira bailarina negra da companhia. O feito, entretanto, não eliminou as barreiras raciais, uma vez que, embora pertencesse oficialmente ao grupo, Mercedes recebia poucas oportunidades de participar dos espetáculos. Sua experiência demonstra que o acesso formal a uma instituição não assegura igualdade de participação, visibilidade e reconhecimento.
Esse aspecto de sua trajetória permite compreender o racismo institucional. A exclusão não dependia de normas que proibissem expressamente a presença de bailarinos negros; manifestava-se nas escolhas cotidianas, na distribuição dos papéis e no padrão corporal considerado adequado ao balé clássico. O documentário, assim, revela a contradição entre sua competência técnica e a marginalização sofrida dentro de uma das instituições culturais mais prestigiadas do país.
A aproximação com o Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias do Nascimento (1914-2011), ampliou as possibilidades artísticas e políticas de Mercedes. Nesse espaço, o artista negro deixava de ocupar posições secundárias e passava a atuar como intérprete e criador de sua própria representação. O contato com Katherine Dunham (1909-2006) também foi decisivo. Bailarina, coreógrafa e pesquisadora norte-americana, Dunham desenvolvia um trabalho que reunia dança moderna, estudos antropológicos e matrizes africanas e caribenhas. A experiência mostrou a Mercedes que a técnica poderia dialogar com os conhecimentos corporais da diáspora africana sem tratá-los como manifestações inferiores.
A partir desses encontros e de suas pesquisas sobre as danças populares e os movimentos rituais do candomblé, Mercedes construiu um vocabulário próprio. Sua contribuição não consistiu em transportar integralmente as cerimônias religiosas para o palco, mas em selecionar gestos, posturas, ritmos e qualidades de movimento associados aos orixás, reelaborando-os de acordo com finalidades pedagógicas e cênicas. A função litúrgica dos movimentos não permanece a mesma em uma apresentação teatral, mas sua origem cultural e simbólica também não é apagada.
O título Balé de Pé no Chão sintetiza essa proposta. A palavra “balé” remete à disciplina, ao ensino organizado e à elaboração coreográfica; “pé no chão” sugere o contato com a terra, o peso corporal, a flexão dos joelhos e a proximidade com as matrizes populares e afro-brasileiras. Enquanto a imagem tradicional do balé clássico enfatiza a elevação e o domínio da gravidade, a linguagem desenvolvida por Mercedes valoriza a relação com o solo, o ritmo e a força do corpo.
Ao criar seu próprio grupo no início da década de 1950, Mercedes também abriu caminhos profissionais para bailarinos negros que encontravam dificuldades semelhantes às que ela havia enfrentado. Muitos de seus alunos vinham de comunidades populares e não tinham acesso às escolas tradicionais de dança. A formação oferecida por Mercedes permitiu que esses corpos ocupassem palcos, espetáculos teatrais e escolas de samba, especialmente em um momento de renovação estética dos desfiles carnavalescos. Sua atuação foi, portanto, artística, pedagógica e política.
O documentário constrói essa memória principalmente por meio das vozes de Mercedes, de seus antigos alunos e de artistas marcados por seu trabalho. Os depoimentos revelam vínculos afetivos, experiências de formação e percepções sobre o preconceito vivido por bailarinos negros. Ao intercalar essas falas com imagens de apresentações e exercícios, as diretoras permitem que o espectador observe a permanência do método no corpo de diferentes gerações. A memória não aparece como algo encerrado no passado, mas como conhecimento transmitido pela repetição dos gestos.
Balé de Pé no Chão constitui, por isso, um documentário de grande valor histórico e educacional. Seu principal mérito está em demonstrar que a dança de Mercedes Baptista nasceu do encontro entre técnica, pesquisa, ancestralidade e resistência. A coreógrafa não se limitou a buscar espaço nas estruturas existentes, ela criou condições para que outros artistas negros se formassem e fossem reconhecidos. Seu legado permanece nos movimentos ensinados, nas experiências de seus discípulos e na afirmação de que o corpo negro não é mero objeto de representação, mas sujeito de conhecimento, memória e criação artística.