por Márcio Adriano Moraes
Lançado em 1990, Txai, de Milton Nascimento, é um álbum musical, construído a partir de um projeto artístico, político e cultural que aproxima canção popular, registros sonoros indígenas, denúncia ambiental e reflexão humanista. Em um momento em que a devastação da Amazônia e a violação dos direitos dos povos originários ainda recebiam atenção limitada no debate público nacional, Milton Nascimento reuniu compositores, lideranças indígenas, pesquisadores e músicos para construir um disco que transformasse a escuta em experiência de encontro intercultural.
O próprio título do álbum sintetiza seu horizonte ético, já que “Txai” é uma palavra de origem indígena cujo significado remete à ideia de companheiro, aliado ou irmão. Essa noção de reciprocidade atravessa toda a obra, que procura construir pontes entre universos frequentemente separados pela história colonial brasileira. Em vez de falar sobre os povos indígenas a partir de uma perspectiva externa, o álbum busca abrir espaço para que suas vozes, cantos e cosmovisões participem diretamente da construção artística.
O disco inicia-se com a fala do líder yanomami Davi Kopenawa, que denuncia a destruição da floresta e alerta para suas consequências cósmicas e humanas. Ao afirmar que “os brancos estão estragando a nossa floresta” e que, sem sua defesa, “o universo vai se desfazer e o céu vai obscurecer para sempre”, o discurso mostra que a questão ambiental não é meramente econômica, mas espiritual e civilizatória.
Ao longo do álbum, Milton e seus parceiros desenvolvem uma poética ligada à natureza. Contudo, diferentemente de parte da tradição literária brasileira que transformou a paisagem em simples cenário contemplativo, a floresta surge como sujeito vivo, dotado de agência e significado. Em “Estórias da Floresta”, por exemplo, elementos naturais participam ativamente da poesia: “a brisa acorda a brasa que dormia”, “o rio aquece sua água fria”, “a mata estranha o que traz o dia”. O recurso da personificação aproxima o mundo humano e o mundo natural, sugerindo uma relação de interdependência incompatível com a lógica de exploração predominante na modernidade ocidental.
Essa percepção reaparece em “Benke”, construindo uma atmosfera de encantamento em que beija-flor, lua, estrelas, água e floresta participam de uma mesma rede simbólica. A imagem da “luminária da mata” e a recorrente referência à “Floresta de joia” transformam a natureza em espaço sagrado e afetivo. Assim sendo, a canção propõe uma experiência de pertencimento, em que o sujeito reconhece sua ligação profunda com o ambiente que o cerca.
Outro aspecto fundamental de Txai é sua valorização das culturas indígenas como produtoras de conhecimento. Faixas como “Baú Meteoro”, “Hoeiepereiga”, “Awasi” e “Baridjumokó” incorporam cantos tradicionais executados pelos próprios povos Kaiapó, Paiter e Waiãpi. Ao inseri-los lado a lado com composições da música popular brasileira, Milton questiona hierarquias culturais historicamente construídas e reafirma a legitimidade estética dessas tradições.
Nesse sentido, destaca-se também “Nozani na”, canção baseada em registro realizado por Heitor Villa-Lobos e Edgar Roquette-Pinto junto aos indígenas Pareci. Interpretada por Milton Nascimento, Marlui Miranda e coro, a faixa traz a permanência e a circulação de patrimônios culturais indígenas dentro da música brasileira. Ao incluir uma canção integralmente em língua indígena, o álbum reafirma a diversidade linguística e cultural do país, contrapondo-se às narrativas homogeneizadoras da identidade nacional.
Em “Sertão das Águas”, a defesa das populações ribeirinhas e da floresta aparece explicitamente: “não podem / a floresta ver destruída”. Já em “Curicuri”, a fala do ator ativista norte-americano River Phoenix assume tom abertamente político ao denunciar um progresso baseado na destruição cultural e ambiental. A canção ironiza a lógica segundo a qual “progresso é destruição, desenvolvimento é dinheiro”, expondo as contradições de um sistema que sacrifica povos, rios e florestas em nome do lucro.
Do ponto de vista estético, canções líricas, cantos tradicionais, narrativas orais, reflexões políticas e experimentações sonoras convivem harmonicamente à suavidade da voz de Milton Nascimento. Mais de três décadas após seu lançamento, em tempos de crise climática, conflitos territoriais e ameaças à diversidade cultural, Txai continua oferecendo uma lição de escuta. O que se espera de uma humanidade é que ela realmente viva “Txai”, ou seja: “mais que amigo”, “mais que irmão”, “a metade de mim que existe em você”, “a metade de você que existe em mim”.