por Márcio Adriano Moraes
Publicado em 1903, o conto As rosas, de Júlia Lopes de Almeida, é uma narrativa breve capaz de provocar simultaneamente encantamento e horror. Por trás da aparente simplicidade do enredo, encontra-se uma reflexão sobre os limites entre afeto e dominação.
A narrativa é conduzida em primeira pessoa por uma mulher proprietária de uma casa cercada por um belo jardim, o qual é cuidado por um jardineiro, apresentado como uma figura inquietante. Sua aparência é marcada por características que o aproximam de um ser quase animalesco, peludo, sombrio e desconfiado. Apesar dos comentários das pessoas que o consideram inadequado para trabalhar na residência, a narradora relativiza tais julgamentos, acreditando que sua aparência rude não corresponde necessariamente a uma má índole.
Encantada com a perspectiva de encontrar o jardim tomado por rosas na manhã seguinte, a narradora intenta colhê-la com suas próprias mãos, dispensando o jardineiro de tal tarefa. Entretanto, ao amanhecer, todas as rosas desapareceram. Ao chamar pelo jardineiro, descobre que ele arrancara todas as rosas que estavam em seu quarto. Ao chegar ao local, descobre que as flores foram utilizadas para cobrir o corpo de uma jovem morta. O espanto se intensifica ao descobrir que a moça era, na verdade, a filha do jardineiro.
A filha havia procurado o pai após sofrer violência do homem que amava. O jardineiro tenta convencê-la a abandonar o relacionamento e permanecer sob sua proteção. Diante da recusa da jovem, que afirma continuar amando o agressor, ele a mata. O crime é justificado pelo próprio personagem como uma forma de proteção e de preservação da honra, revelando uma mentalidade baseada na posse e no controle sobre a vida feminina.
Nesse sentido, o amor paterno transforma-se em posse; a proteção converte-se em controle; o cuidado degenera em destruição. As mesmas flores que a narradora pretendia utilizar para homenagear a filha morta tornam-se o véu funerário da filha assassinada pelo jardineiro.
Por isso, As rosas pode ser lido como um conto que ultrapassa a simples narrativa de mistério ou de horror. Júlia Lopes de Almeida constrói uma reflexão sobre os perigos das relações fundadas na posse e na negação da liberdade do outro. O desfecho trágico evidencia como sentimentos aparentemente nobres podem assumir formas destrutivas quando confundidos com controle e propriedade. Ao reunir lirismo, suspense e crítica social em poucas páginas, a autora produz uma narrativa, cuja atualidade permanece evidente diante das discussões contemporâneas sobre violência contra a mulher.