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Márcio Moraes
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Textos

Vida desinteressante: fragmentos de memórias, de Victor Heringer

por Márcio Adriano Moraes

A coletânea Vida desinteressante: fragmentos de memórias, organizada por Carlos Henrique Schroeder, reúne crônicas publicadas pelo carioca Victor Heringer (1988 – 2018) na revista Pessoa entre 2014 e 2017. O título, de aparente despretensão, já antecipa a ironização da própria experiência cotidiana, elevada à categoria de matéria literária. Longe de sugerir banalidade, a “vida desinteressante” revela-se, paradoxalmente, profundamente significativa, pois é justamente naquilo que parece trivial que o autor encontra densidade existencial, crítica social e elaboração estética.

 

Desde a primeira leitura, percebe-se que o livro se constrói como um mosaico fragmentário, em que cada crônica funciona como um instante de memória — não linear, não totalizante, mas descontínuo e sensorial. Essa estrutura fragmentária não é apenas formal, pois corresponde a uma concepção contemporânea de sujeito, marcada pela instabilidade, pela fluidez identitária e pela impossibilidade de uma narrativa contínua de si. Assim, a memória em Heringer não é reconstrução fiel do passado, mas invenção, seleção e, sobretudo, interpretação.

 

Suas crônicas transitam entre o ensaio, o relato autobiográfico, a ficção breve e, por vezes, o comentário metalinguístico. Essa hibridez formal evidencia uma escrita que se recusa a se fixar em categorias rígidas. Em textos como “Viver na literatura” , percebe-se uma reflexão explícita sobre o próprio ato de escrever, evidenciando o caráter autorreflexivo da obra. A literatura aparece não apenas como tema, mas como modo de existência: viver na literatura significa, simultaneamente, distanciar-se do mundo e compreendê-lo de maneira mais aguda. Essa dimensão metalinguística aproxima Heringer de uma tradição moderna e contemporânea em que o texto se volta sobre si mesmo, questionando seus próprios limites. Contudo, ao contrário de uma escrita excessivamente hermética, o autor mantém uma linguagem acessível, marcada por uma aparente simplicidade que esconde grande elaboração.

 

Um dos eixos mais relevantes da obra é a valorização do cotidiano aparentemente insignificante. Pequenos acontecimentos, lembranças difusas, cenas corriqueiras — tudo isso constitui a matéria-prima das crônicas. Títulos como “Os sapatos do meu pai” ou “Passeio extraordinário” indicam essa atenção ao detalhe íntimo e familiar. No entanto, essa banalidade não é meramente descritiva. Heringer realiza um deslocamento: o trivial torna-se revelador. O gesto mínimo — um objeto, uma lembrança, uma cena doméstica — abre-se para questões mais amplas, como o tempo, a morte, a identidade e as relações humanas. Essa operação estética dialoga com a tradição da crônica brasileira, a exemplo de Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade, mas também com uma sensibilidade contemporânea que reconhece no cotidiano uma forma de resistência à espetacularização da vida. Em um mundo saturado de eventos extraordinários e estímulos constantes, a escrita de Heringer aposta no silêncio, na pausa e na observação.

 

O subtítulo “fragmentos de memórias” é decisivo para compreender o projeto do livro. A memória, aqui, não é linear nem organizada; ela se apresenta em pedaços, em lampejos. Essa fragmentação é visível tanto na estrutura quanto no conteúdo das crônicas. Em diversos textos, o narrador evoca lembranças de infância, relações familiares, experiências urbanas e afetivas. Contudo, essas lembranças não são apresentadas como um relato coeso, mas como reconstruções parciais, muitas vezes marcadas pela dúvida ou pela lacuna. O passado surge como instável, sujeito a revisões. Essa abordagem aproxima Heringer de uma concepção contemporânea de memória como construção narrativa. O sujeito que lembra não é o mesmo que viveu; há um intervalo, uma mediação. Assim, a escrita torna-se um espaço de negociação entre experiência e linguagem. Além disso, a memória, em Heringer, está profundamente ligada à materialidade: objetos, lugares e imagens servem de gatilhos de recordação. Essa dimensão sensorial confere às crônicas uma forte carga imagética, ainda que sem recorrer a descrições excessivamente ornamentadas.

 

Outro aspecto fundamental da obra é a convivência entre humor e melancolia. O título Vida desinteressante já sugere uma ironia que atravessa todo o livro. Há um jogo constante entre o que se diz e o que se sugere, entre o tom aparentemente leve e o conteúdo, muitas vezes, denso. O humor de Heringer não é escancarado; trata-se de um humor sutil, por vezes autoirônico, que funciona como estratégia de distanciamento. Ao mesmo tempo, esse humor convive com uma melancolia latente, ligada à passagem do tempo, à perda e à consciência da finitude. Crônicas como “O muro contra a morte” explicitam essa tensão: a tentativa de resistir simbolicamente à morte revela, ao mesmo tempo, sua inevitabilidade. A escrita surge, então, como um gesto de enfrentamento, ainda que precário, diante do desaparecimento. Essa combinação de humor e melancolia aproxima Heringer de uma linhagem de escritores que exploram o “trágico cotidiano”, em que a leveza não elimina a gravidade, mas a torna mais suportável.

 

As cidades, especialmente o Rio de Janeiro, aparecem não como cenário neutro, mas como espaços de experiência subjetiva. Em textos como “Cidades, cidadãs, cidadãos” , observa-se uma reflexão sobre a vida urbana e suas contradições. A cidade em Heringer é fragmentada, caótica, mas também profundamente humana. É um espaço de encontros e desencontros, de anonimato e de intimidade. A experiência urbana contribui para a construção de um sujeito deslocado, que observa mais do que participa. Essa perspectiva dialoga com a tradição moderna da crônica urbana, mas também com uma sensibilidade contemporânea marcada pela sensação de desenraizamento. O sujeito heringeriano é, muitas vezes, um observador deslocado, que se move entre espaços sem se fixar completamente em nenhum.

 

As crônicas de Heringer revelam um constante diálogo com a literatura, o cinema, a música e outras formas de arte. Esse diálogo não se dá de maneira ostentatória, mas integrada à própria experiência narrada. Referências culturais surgem de modo orgânico, como parte da memória e da formação do sujeito. Isso reforça a ideia de que a identidade é construída também a partir das experiências culturais, e que a literatura é um espaço de circulação de vozes. A intertextualidade, nesse sentido, contribui para ampliar o alcance das crônicas, conectando o cotidiano individual a uma rede mais ampla de significados.

 

Um dos traços mais marcantes da escrita de Heringer é sua linguagem. À primeira vista, trata-se de uma linguagem simples, direta, sem grandes ornamentos. No entanto, essa simplicidade é resultado de um trabalho rigoroso de seleção e construção. As frases são, em geral, curtas, precisas, com forte carga sugestiva. Há um domínio do ritmo e da pausa, que contribui para a construção de uma voz narrativa íntima e reflexiva. Além disso, a economia verbal intensifica o efeito das imagens e das ideias. O não dito, isto é, aquilo que fica implícito, é tão importante quanto o que é explicitamente enunciado. Essa característica aproxima Heringer de uma estética da sugestão, em que o leitor é convidado a participar da construção de sentido.

 

Por trás das crônicas aparentemente leves, há uma forte dimensão existencial. Questões como o tempo, a morte, a solidão e o sentido da vida atravessam o livro de maneira recorrente. No entanto, essas questões não são tratadas de forma abstrata ou filosófica no sentido tradicional. Elas emergem do cotidiano, das pequenas experiências, das lembranças. É justamente essa ancoragem no concreto que confere força à reflexão. A escrita de Heringer sugere que o sentido da vida, se é que existe, está nos detalhes, nos fragmentos, nos instantes. A “vida desinteressante” revela-se, assim, profundamente humana.

 

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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 19/03/2026
Alterado em 18/04/2026
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