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Márcio Moraes
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Textos

Incidente em Antares, de Érico Veríssimo

por Márcio Adriano Moraes

Publicada em 1971, Incidente em Antares, do gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), é uma obra escrita sob o impacto da ditadura cívico-militar instaurada em 1964, e que emaranha sátira política, crítica social, reconstrução histórica e elementos fantásticos. Ao mesmo tempo em que dialoga com a tradição realista e regionalista do romance brasileiro – herança da segunda geração modernista – o livro rompe com ela ao incorporar procedimentos alegóricos e grotescos que intensificam seu potencial crítico.

 

Objetivamente, o romance constrói uma cidade fictícia (Antares) localizada na fronteira sul do Brasil com a Argentina, e a utiliza como microcosmo da história política, social e moral do país. Ao narrar mais de um século de formação dessa comunidade e culminar num episódio insólito envolvendo cadáveres insepultos, Veríssimo cria uma metáfora abrangente da falência ética das instituições e da naturalização da violência nas relações de poder.

 

Quanto ao seu estilo, Incidente em Antares é, simultaneamente, romance histórico, sátira política, alegoria social e narrativa fantástica. Assim sendo, apesar de dialogar com a tradição do realismo crítico da década de 1930, a obra se aproxima também do realismo mágico latino-americano, ainda que com características próprias, já que, em Veríssimo, o fantástico não naturaliza o maravilhoso, mas o utiliza como ruptura escandalosa da ordem social. Há ainda forte diálogo com a tradição da sátira menipeia, marcada pela inversão de valores, pelo riso e pela exposição do ridículo das instituições. O romance também se apresenta como uma alegoria política, na medida em que Antares se torna uma metonímia, ou seja, a parte de um todo, sendo uma condensação do Brasil.

 

O romance é conduzido por um narrador onisciente em terceira pessoa, que assume postura declaradamente irônica e crítica. Esse narrador não se limita a relatar os fatos, pelo contrário, comenta-os, julga-os, antecipa acontecimentos, ironiza personagens e desmonta discursos oficiais. Trata-se de uma voz narrativa que simula, em muitos momentos, o tom de um cronista histórico ou de um memorialista, mas que subverte essa pretensa neutralidade ao expor contradições, hipocrisias e brutalidades. Na primeira parte do romance, o narrador adota um registro quase historiográfico, reconstruindo a fundação de Antares, o conflito entre as famílias Vacariano e Campolargo e os principais episódios políticos da cidade. Essa escolha reforça a crítica à chamada “história oficial”, frequentemente marcada pelo apagamento da violência estrutural e pela glorificação dos poderosos. Já na segunda parte, quando ocorre o “incidente” propriamente dito, o narrador intensifica o tom satírico e grotesco, expondo com maior nitidez o absurdo moral da sociedade antarense.

 

Com relação ao tempo, a narrativa cobre um arco histórico que se inicia no século XIX, com a fundação do Povinho da Caveira (primeiro nome de Antares), por volta da década de 1830, e chega aos anos 1960, mesclando dois planos temporais principais: o tempo histórico de longa duração, que acompanha a formação da cidade, os conflitos oligárquicos, as guerras regionais, a república, a modernização e a permanência de estruturas arcaicas de poder; e o tempo concentrado do episódio central, ocorrido na sexta-feira 13 de dezembro de 1963, quando uma greve geral impede o sepultamento de sete mortos. Essa estrutura temporal é fundamental para o sentido do romance, uma vez que o episódio fantástico só adquire pleno significado porque está ancorado numa longa tradição de autoritarismo, corrupção e violência. Dessa forma, o passado não é superado,  ele se acumula e irrompe simbolicamente no presente, na forma dos cadáveres que se recusam a permanecer silenciados.

 

Essa linha temporal também é fundamental para entender a divisão do livro em duas partes. A primeira: Antares reconstrói a história da cidade desde sua fundação, enfatizando os ciclos de violência, o domínio oligárquico e a falsa ideia de progresso. A segunda: O Incidente narra o acontecimento fantástico, desencadeado pela greve geral que impede os sepultamentos e leva os mortos a ocuparem a praça pública. Esse episódio dos cadáveres falantes rompe com a lógica realista tradicional e introduz o fantástico como estratégia de desvelamento: aquilo que é insuportável de ser dito em vida emerge pela boca dos mortos. O grotesco, o escatológico e o absurdo não funcionam como mero choque, mas como instrumentos críticos.

 

Apesar de haver referenciais a cidades com verossimilhança geográfica no Brasil, como Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Borja, o espaço central da narrativa é a cidade fictícia de Antares, descrita com minúcia e forte carga simbólica. Embora imaginária, a cidade remete claramente a municípios do interior do Rio Grande do Sul e, por extensão, a muitas cidades brasileiras marcadas pelo mando oligárquico, pelo coronelismo e clientelismo. Antares é apresentada como um espaço de fronteira geográfica, política e moral. Sua localização limítrofe reforça a ideia de ambiguidade: entre civilização e barbárie, legalidade e violência, discurso progressista e práticas arcaicas. O espaço urbano (a praça, o cemitério, a prefeitura, a igreja) serve de palco onde se encenam as disputas de poder e, mais adiante, a exposição pública das verdades ocultas.

 

Com relação às personagens, estes são menos como indivíduos psicológicos complexos e mais como tipos sociais e políticos. Na primeira parte, destacam-se as famílias Vacariano (Francisco, Xisto, Tibério)  e Campolargo (Anacleto, Benjamin, Zózimo) cujas rivalidades estruturam a história de Antares. Essas duas famílias encarnam a lógica oligárquica, marcada por hereditariedade do poder, violência privada, manipulação política e desprezo pelas camadas populares. Na segunda parte, ganham relevo os sete mortos insepultos: a matriarca dos Campolargo (Quitéria), o advogado corrupto (Cícero Branco), o “subversivo” (Joãozinho Paz), a prostituta (Erotildes), o músico (Menandro Olinda), o bêbado (Pudim de Cachaça) e o sapateiro anarquista (Barcelona). Essas personagens, ao retornarem à vida, tornam-se porta-vozes das verdades que a cidade prefere ocultar. A morte lhes confere, assim, uma liberdade paradoxal, já que livres das convenções sociais, eles denunciam publicamente os crimes, hipocrisias e abusos cometidos pelos vivos. Essa inversão, isto é, mortos mais lúcidos que os vivos, é central para a crítica moral do romance.

 

Em Incidente em Antares, dessa forma, Érico Veríssimo desnuda os mecanismos de poder e denuncia a naturalização da injustiça. A cidade fictícia de Antares ultrapassa seus limites geográficos e se projeta como metáfora do Brasil, revelando que, muitas vezes, são os mortos, e não os vivos, os verdadeiros portadores da verdade. Trata-se, portanto, de um romance que desafia o leitor não apenas a compreender uma narrativa, mas a questionar uma tradição histórica de silêncios, violências e farsas institucionais que ainda se sustentam no presente.

 

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Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 21/12/2025
Alterado em 15/03/2026
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