por Márcio Adriano Moraes
Entre as narrativas que compõem Primeiras estórias (1962), “A menina de lá” destaca-se pela delicadeza com que João Guimarães Rosa transforma o cotidiano sertanejo em espaço de revelação do mistério. O conto desenvolve-se a partir da contemplação da infância e da convivência entre o mundo concreto e uma dimensão transcendente, construída de maneira sutil, sem romper a verossimilhança interna da narrativa.
O advérbio “lá” do título não designa apenas um lugar geográfico distante, mas sugere um espaço inacessível à compreensão humana, uma realidade situada para além da experiência cotidiana. É como se Nhinhinha viesse para o “cá”, sem, contudo, deixar de ser de “lá”, permanecendo ligada a uma esfera misteriosa que transcende a lógica racional.
A protagonista é Maria, conhecida como Nhinhinha, uma menina de aproximadamente quatro anos que vive com os pais em um pequeno sítio situado no Temor-de-Deus, atrás da Serra do Mim. Desde as primeiras linhas, ela é apresentada como uma criança incomum: pequena, silenciosa, de olhos enormes e linguagem enigmática. Sua forma de perceber o mundo desconcerta os adultos, pois suas palavras parecem ultrapassar a racionalidade cotidiana. Frases como “Tudo nascendo!”, “O ar está com cheiro de lembrança” ou “Eu... tou fazendo saudade” revelam uma percepção poética da realidade, na qual linguagem e existência se confundem.
“Nhinhinha”, além de carregar a afetividade do diminutivo, sugere pequenez e aparente insignificância, em contraste com seu nome de batismo, Maria, tradicionalmente associado, na tradição cristã, à figura da mãe de Jesus e à mediação entre o humano e o divino. O lugar onde vive, Temor-de-Deus, remete igualmente ao universo bíblico, evocando a reverência diante do sagrado e aproximando a narrativa do campo do mito e da experiência mística. Até mesmo a Serra do Mim adquire significado metafórico, podendo representar o espaço da interioridade, da memória e do encontro consigo mesmo, dimensão frequentemente presente na obra rosiana.
Seus dons surgem naturalmente da convivência diária. Quando deseja que uma rã apareça, o animal imediatamente entra na casa; quando manifesta vontade de comer uma pamonha de goiabada, alguém chega trazendo exatamente o alimento; quando abraça a mãe enferma, a cura acontece instantaneamente. Os milagres não são descritos de forma espetacular, mas incorporados ao cotidiano como acontecimentos que despertam mais perplexidade do que euforia.
Quanto a esse aspecto de religiosidade, a mãe mantém permanentemente um terço nas mãos; a família interpreta os acontecimentos com temor e reverência; posteriormente, teme que padres e bispos descubram os milagres da menina. Contudo, a espiritualidade manifesta-se como experiência vivida, profundamente ligada ao afeto, à natureza e ao silêncio. Nhinhinha aproxima-se da figura dos santos populares brasileiros justamente porque sua santidade nunca é proclamada por ela mesma.
Após adoecer inesperadamente, Nhinhinha morre, deixando a família mergulhada em profundo sofrimento. Somente então compreende-se o sentido de seu desejo anterior por um “caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites de verdes brilhantes”. O episódio, longe de assumir caráter macabro, transforma-se em confirmação da dimensão transcendente da personagem. O caixão desejado torna-se símbolo da passagem para outra existência e consolida a imagem de “Santa Nhinhinha”, construída espontaneamente pelos familiares.
Embora breve, o conto aborda temas universais como infância, morte, fé, linguagem, memória e transcendência. Rosa demonstra que o mistério não pertence apenas ao sobrenatural, mas também à própria condição humana. A criança, por conservar um olhar livre das convenções dos adultos, torna-se mediadora entre o visível e o invisível, entre a realidade e aquilo que escapa às explicações racionais. A própria narrativa convida o leitor a abandonar temporariamente a lógica utilitária para experimentar uma forma mais intuitiva de conhecimento, em que poesia, imaginação e espiritualidade convergem para um ponto que somente quem possui olhos que enxergam o “lá” conseguem vislumbrar o “cá”.