Márcio Moraes
"no leito solidário de uma floresta altiva descansem por favor a minha poesia"
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Crônica premiada no 13º Concurso Literário Paulo Setúbal (2015)
Colocação: 2º lugar
Tatuí - São Paulo

 
Uma velhinha
 
Hoje, revi, depois de quinze anos, uma velhinha, que, há quinze anos, já era velha. Naquele tempo, ela vendia panos de prato bordados nas ruas da cidade. Eu a via em pontos de ônibus e ruas do centro. Mas também cheguei a vê-la em ruas do meu bairro, uma caminhada de uns quarenta a cinquenta minutos até a praça Dr. Carlos. Caminhada de passos largos. Imagino que ela caminhara por outros mais longínquos bairros, quiçá visitara outras cidades. Ela não parecia ter nenhuma condução própria. Seu transporte, sem dúvida, sempre fora os ônibus coletivos. Eu a via oferecer às pessoas os seus panos de prato, cujos bordados, com certeza, eram frutos de suas mãos. Não me recordo de ter visto alguém comprá-los. E imagine, ela também os ofereceu a mim, que, como muitos, ignorei a oferta. Hoje, porém, eu a revi.

Poderia hesitar, mas tenho certeza de minhas imagens fotográficas: essa velhinha, eu nunca a vi acompanhada. Contudo, não digo que vivia só. Não tenho essa onisciência. Sei, no entanto, que seus panos de prato bordados a sustentara até este momento. Sustentara o seu corpo franzino e, por que não, sustentara uma família inteira, oculta, mas família.

Depois de quinze anos, eu a revi. Não digo que ao longo desse período eu não tenha voltado a vê-la. Por vezes, ela me aparecia no seu contínuo labor. Mas nunca tinha fixado o meu olhar e coração em seu ser com tanta intensidade como neste momento, em que vivo, e que me exige tal força. A sua fisionomia se cravou em minha mente. Poderia dizer que ela lembrava minha avó paterna. Verdade, pois, de fato, lembrava. Porém, acredito que não foi isso que ela me deixou. Não. Não foi a recordação de um ente querido, uma mera semelhança física. Essa senhora de cabelos brancos me legou algo mais. Algo que espero compreender ao longo dessa escrita, em que a memoro.

Hoje, eu a revi, estava próxima à Praça de Esportes. Eu saía de uma loja de informática, à procura de tecnologias, recurso indispensável para a vida moderna. Então, ainda no estacionamento, eu a revi. Ela estava segurando em um poste, desses de placas de trânsito. Não me atentei para a informação contida na placa. Seria irônico, mas muito mesmo, se a placa fosse de “pare”. Ela estava segurando, firme. Seus ombros curvados, numa postura tipicamente anciã, corcunda, de peles altamente enrugadas. Eu a encarei. Ela levantou os olhos e me olhou, como quem olha o nada, sem me fitar, sem dar por mim. Mas eu me deixei penetrar pelo seu rápido olhar. Não pude deixar de perceber que um de seus olhos estava baixo, pendente, sugerindo que fora vitimada por um “AVC”, talvez. Passei por ela e continuei meu caminho, mas sem os passos que me acompanhavam. Eu não poderia caminhar da mesma forma depois desse encontro.

Sim, encontrei-me não apenas com uma velhinha que se fixara em minha memória desde o primeiro dia em que a vi, há quinze anos. Encontrei-me também com aquele Office boy que corria de um banco a outro. Aquele rapaz de uniforme de empresa, muito maior que seu manequim. E percorri mentalmente seus passos até esse encontro.

Confesso que tive vontade de ir até ela, perguntar, pelo menos, o seu nome. Mas me contive. Contentei-me em andar pela rua lateral, voltando-me para ela que continuava, parada, segurando o poste. Era a imagem antitética do mundo. Procurei em seus ombros e mãos a sacola com os panos de prato. Não os vi. Por que eu não os comprei? Estaria ela ainda bordando? Seu sustento continuaria sendo suas minguadas vendas?

Não sei. Como não sei dizer o que sinto neste momento. Não consegui compreender. Desculpe. Mas há algo que me inunda, me sufoca e me afoga. Passarei novamente pelo mesmo lugar com a esperança de vê-la ainda. Porém, a pisada do tempo nos retarda, fatalmente. E quando menos imaginarmos, estaremos também segurando o mesmo poste.
E se eu a vir novamente, o que farei? Perguntar-lhe o nome? Para quê? O que poderei fazer por ela, ou melhor, o que ela pode esperar desta hora crepuscular da vida? Não sei, sinceramente, não sei. Mas sei que se eu a encontrar novamente – e temo este encontro – tenho o dever de lhe dizer obrigado. Dizer obrigado, apenas, e sair, deixá-la na incógnita, tão próxima está naturalmente de uma.

Hoje, encontrei-me com mim mesmo. Estava perdido no tempo que me trouxe a velhinha de volta. Meus passos já não são os mesmos mais. Talvez, um dia, desses em que a gente não espera, eu possa compreender... Se eu vir a velhinha novamente, direi apenas obrigado? Não, tenho competência para ser mais sensível que o poste: segurarei a sua mão e esperarei acontecer o que não digo. Sou agora um de seus bordados.

Hoje, revivi.
Márcio Adriano Moraes
Enviado por Márcio Adriano Moraes em 08/08/2015
Alterado em 10/08/2015
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